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O que faz o eScience? Claudia Bauzer explica

Computação para o avanço da ciência

eScience usa computadores para organização e extração de dados que ajudam pesquisas em diversas áreas

 

Quando uma ligação telefônica é feita, um pagamento é realizado no caixa de supermercado ou medimos nossa pressão, um conjunto de informações é gerado, podendo ser registrado e usado para múltiplas finalidades.

A computação e o gerenciamento de dados, presente no cotidiano de cada um, também faz parte do trabalho dos cientistas do CEPID eScience (Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Engenharia e Ciências Computacionais) instalado na Unicamp e apoiado pela Fapesp.

Quem explica é a vice-diretora do eScience e professora titular do Instituto de Computação da Unicamp, Claudia Bauzer. "Ajudo a cuidar de dados e extrair informação deles", sintetiza.

Cláudia Bauzer esclarece que a computação é o carro-chefe do eScience porque é por meio dela que os resultados de pesquisas científicas se tornam mais rápidos e eficientes.

Organização -"Primeiro é preciso saber o que queremos analisar. São tantos dados que seria impossível e até sem sentido guardar tudo. São guardados os instantes, uma amostragem", explica ao dizer que os dados são pedaços: parte de um filme em que o carro atravessa o sinal ou dentro de uma loja quando passamos pelo caixa, por exemplo.

Esses instantes precisam ser organizados para que os padrões de ocorrências sejam extraídos.

"O especialista (da química, da biologia, da engenharia ou do meio ambiente) define os objetivos. Desenvolvemos programas, a partir desses objetivos, da organização de dados. Assim, o eScience lida com o avanço da ciência mediado pela computação", resume.

Entre seus trabalhos, a professora Claudia fez um programa na França voltado à quantidade de veículos que passam em determinadas esquinas por segundo. Ela cuidou do armazenamento dessas informações, de forma que pudessem ser encontradas depois. "Esse tipo de trabalho serve para diversas áreas como para policiamento, trânsito, gestão de energia... Políticas públicas de saúde também são possíveis. Dá até para entender as razões de incidência de mosquitos transmissores de doenças em certos locais e, assim, controlar as causas", exemplifica.

Correlações -  A parte do trabalho do pessoal da computação no eScience é saber como organizar os dados para que correlações sejam descobertas.

"O computador simula a natureza em um conjunto de condições de temperatura, solo, umidade, clima... e surge um resultado dessas interações. A simulação é como se fosse um desenho animado, de vários objetos interagindo, mas ninguém vê porque está em linguagem de programa de computador", afirma Claudia.

O trabalho faz parte de uma área da computação chamada de "mineração de dados". São novas técnicas que conseguem dar conta de um conjunto de dados muito grande (big data): "É como o mineiro que sabe ou desconfia que haja metal precioso em certo local. Ele vai lá trabalhar usando técnicas, jogando fora o que não lhe interessa. Técnicas normais não conseguem fazer isso, são as novas técnicas que vão buscar correlações", explica a pesquisadora.

Uma correlação é quando o computador mostra relacionamentos que induzem o analista a fazer hipóteses. Por exemplo: "O sistema padrão diz quantas chamadas telefônicas uma pessoa fez. Já a mineração mostra que toda vez que a pessoa liga para x, liga depois para y", ilustra a professora.

Avanços – Descobertas submarinas, desenvolvimento de equipamentos óticos e outros equipamentos de coleta de dados que são gerenciados por computadores abriram muitas possibilidades para a ciência.

Na bioinformática, área de aplicação da informática à biologia, estudos sobre genomas permitem detectar que tipos de genes podem causar determinadas doenças. Segundo Claudia, há grande número de testes para melhoria genética de plantas e para desenvolvimento de novos produtos.

Na quimioinformática, área multidisciplinar que envolve a química e a informática, é possível simular como um remédio vai interagir no corpo humano. "O computador simula isso de um jeito mais rápido. Uma série de ligações já é descartada aí. Sem o computador, todas essas ligações levariam anos para serem rejeitadas", aponta Claudia.

O eScience é um centro multidisciplinar porque envolve várias áreas, como química (estudo de interações entre moléculas), física (átomos) e engenharia mecânica (composição de materiais), entre outras. Suas pesquisas visam também documentar códigos básicos e padrões para que outros pesquisadores possam utilizar em pesquisas mais complexas.

"Por isso, o trabalho do CEPID é multiescala e pode ser considerado o carro-chefe de diversas áreas científicas", resume a professora.

Perfil – Ao desenvolver pesquisas em gerenciamento de dados científicos do mundo real, em particular de biodiversidade, Claudia Bauzer também tem sua trajetória reconhecida por inspirar atuação de mulheres na ciência e por integrar disciplinas como humanidades, meio ambiente e informática.

É a segunda cientista do sexo feminino a receber um título Honoris Causa da Université Paris Dauphine, da França, em 2015. É a primeira e, até agora, única mulher a ser presidente da Sociedade Brasileira de Computação, de 2003 a 2007. Não à toa, foi a primeira brasileira a ganhar prêmio em prol das mulheres em computação, do Anita Borg Institute for Women and Technology, da Associação Americana de Computação (ACM), Change Agent Award, em 2006.

Na Fapesp, ela é um dos dois coordenadores adjuntos na área de programas especiais. Encarregada de cuidar das humanidades digitais, representa a fundação na Transatlantic Plataform, uma plataforma formada por treze agências de fomento do mundo inteiro para as ciências sociais e humanidades.

A professora fez sua graduação em Engenharia Elétrica na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), em 1976, mestrado em Informática pela mesma faculdade em 1979 e doutorado em Ciência da Computação pela Universidade de Waterloo, em 1985. Perguntada sobre seus títulos, Claudia muda o rumo da conversa. Como cientista, prefere falar do futuro.

 

Mariana Castro Alves é jornalista e bolsista Fapesp para divulgação do CEPID Centro de Pesquisa em Engenharia e Ciências Computacionais


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